Esta é uma história do cotidiano, cujos personagens: todo mundo, ninguém, alguém e o resto, foram parcialmente inspirados na obra” alto da barca do inferno” de Gil Vicente.
Era um condomínio, onde todo mundo queria ser bem atendido e que tudo funcionasse bem, afinal, todo mundo achava que o prédio era só seu e que não devia se preocupar com ninguém. Ninguém pensava no bem comum, sempre ajudava o resto e constantemente se oferecia para assumir novas responsabilidades. Quando alguém tinha um,a boa idéia, havia uma clara divisão entre os condôminos: todo mundo era contra, ninguém apoiava e o resto ficava em cima do muro.
O mesmo acontecia na manutenção do prédio: ninguém tinha zelo pelos equipamentos, todo mundo quebrava tudo, alguém levava a culpa pelas costas e o resto nem tomava conhecimentos.
Quanto ao dinheiro, ninguém pagava alegremente as cotas mensais, todo mundo achava que pagava demais o resto pensava que o síndico era ladrão.
Com os funcionários, todo mundo era arrogante, alguém se preocupava um pouco com eles, ninguém sabia dar ordens e o resto os ignorava. Em termos de comportamentos coletivos, também havia diferenças: ninguém respeitava o horário de silêncio, todo mundo burlava as normas, alguém fazia barulho e o resto reclamava todo dia.
Se os condôminos já não eram unidos, as respectivas famílias só colaboravam mais para a discórdia: ninguém tinha filhos comportados, e educadíssimos. A mulher de todo mundo fazia fofoca escondida e ainda falava mal dos outros. Difícil era achar alguém tentando apaziguar os vizinhos. O resto tinha parentes que chegavam fora de hora e falavam alto pelos corredores.
Numa assembléia para a eleição do síndico, a coisa ficou difícil. Ninguém era candidato, para dedicar boa parte de seu tempo ao condomínio. Todo mundo queria ser dedicado, mas fazia charminho, como se fosse indiferente ao assunto. O resto queria se ver livre do abacaxi e torcia para a eleição acabar.
Alguém, que chegou novamente atrasado, foi eleito sem saber porque e não podia recusar, pois a reunião já estava encerrada.
Para tentar dividir as tarefas, alguém queria saber com o resto quem faria parte do conselho. O resto disse que havia muita gente boa para o cargo e que apoiava todo mundo. Ninguém levantou a não, fazendo questão de oferecer-se. Todo mundo, que pensava que ninguém era de confiança, lavou as mãos e deixou a coisa pra lá. Depois de muita enrolação, quando parecia que todo mundo estava disposto a assumir, o resto teve que retirar-se antes para outros compromissos e ninguém acabou o conselho.
Assim, convivendo amigavelmente no mesmo condomínio, aqueles cardeais iam tocando a vida. Da ultima vez que os visitei, conversei com todos: Alguém aparecia sempre com idéias que pensava novas, já exaustivamente discutidas antes. Todo mundo achava-se o morador exemplar e vitima da perseguição do sindico. Ninguém apoiava a administração e colaborava ao Maximo. O resto vivia pensando no feliz dia em que poderia mudar-se daquele incomodo prédio.